Resenha: Laranja Mecânica

Título: Laranja Mecânica

Autor: Anthony Burgess

Editora: Aleph

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Hey!

E ai, preparados para um livro bem horrorshow?!

Alex é o líder de uma gangue futurista. Junto com os amigos adolescentes Georgie, Pete e Tosko, pratica assaltos, espancamentos e estupros livremente pelas ruas de uma Londres decadente, cujos habitantes têm medo de sair à noite e preferem se distrair com programas de televisão.

Um dia Alex vai longe demais e, involuntariamente, comete um assassinato. Preso, sua única chance de sair da reclusão é participar como cobaia de uma experiência de engenharia social desenvolvida para eliminar tendências criminosas. Uma experiência extremamente dolorosa e tão desumana quanto a ultraviolência que o próprio Alex costumava praticar.

Narrada pelo personagem principal, esta brilhante e perturbadora história cria uma sociedade futurista em que a violência atinge proporções gigantescas e provoca uma resposta igualmente agressiva de um governo capitalista, porém totalitário. O clássico de Anthony Burgess frequentemente nos choca ao explorar o verdadeiro significado da liberdade e o conflito entre o bem e o mal. A estranha linguagem utilizada por Alex e sua gangue – soberbamente engendrada pelo autor – empresta uma dimensão quase lírica ao texto.

Confesso que comprei o Laranja Mecânica há bastante tempo, na época, por volta dos meus 12 anos, sempre que abria para ler me cansava com o vocabulário, e logo nas primeiras páginas não aguentava o “clima pesado” que o livro passava. Ficou guardado por anos na  estante, intocado.

Esse ano voltei a me interessar após assistir o filme, a adaptação cinematográfica de Stanley Kubrick, que particularmente achei incrível, e me fez querer ler também a história. E não é que fluiu muito bem dessa vez?

O livro é escrito em primeira pessoa, o que nos faz entrar e entender a cabeça do nosso protagonista, Alex, então se prepare para muitos atos de ultraviolência, e tudo numa “linguagem nadsat“, que é basicamente o dialeto falado por ele e toda sua gangue, composta por Georgie, Pete e Tosko.

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Pode esperar por palavras bem estranhas e fora de sentido, o que era a intenção do autor na hora de escrever, trazer esse desconforto aos leitores. Mas fique calmo, no final do livro tem um glossário com o significado de cada gíria, apesar de dizerem que é bom ler sem consultá-lo, para sentir o que o autor propõe. Eu não me contive, para cada palavra diferente já pulava para checar seu significado. Mas foram só nos primeiros capítulos, pode acreditar, antes do livro acabar você já estará entendendo – e até falando – a linguagem nadsat.

Bem, o livro também é dividido em três partes, com sete capítulos cada. A primeira parte é antes da prisão de Alex, a segunda conta o que aconteceu durante seu tempo preso, e a terceira, após ser solto. O que é mais interessante e me chamou muito a atenção é que a versão cinematográfica simplesmente acaba no início da terceira parte do livro, ficando um bom pedaço só para os leitores desvendarem.

Enquanto o filme focou mais na parte da crítica a sociedade, em relação ao poder de escolha do indivíduo e a manipulação do Estado, tive a impressão de que o livro, além da crítica, foca bem mais na trajetória e amadurecimento do Alex, suas indagações sobre a violência, as responsabilidades da vida adulta chegando e sua mudança de pensamento.

Outra parte indispensável é quando Alex vai preso por assassinato. Por conta do crime, a sentença foi bem alta e, quando recebe uma proposta para se ver livre em duas semanas, apenas sendo cobaia de um Tratamento Ludovico, mal pensa duas vezes em aceitá-lo.

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Mas em que consiste esse novo tratamento? Basicamente Alex seria obrigado a ver horríveis imagens de violência, que para ele sempre foram normais, porém sob efeito de fortes drogas que torturam seu corpo, numa sensação de quase morte. Dessa forma, assimilaria sempre a sensação da dor ao ver ou participar de atos violentos. Tirando a liberdade de escolha entre o bem e o mau que o personagem tinha, transformando-o numa verdadeira laranja mecânica: algo natural, com sabor e vida sendo combinado com um objeto mecânico, artificial, robótico e programável.

*Inclusive, em uma das sessões de tortura, colocaram, acidentalmente, o símbolo de arte que Alex mais tinha prazer, a nona sinfonia de Beethoven, impossibilitando que ele conseguisse escutá-la outra vez. O que causa um transtorno muito grande para o garoto. 

Aí ficam as críticas que o livro nos traz: o sistema carcerário é mesmo tão bom assim para a transformação de um criminoso? É certo tirar o livre-arbítrio de uma pessoa em nome do bem estar social?  Deve-se ter a intervenção do Estado nos indivíduos? Perguntas que basicamente saltam das páginas do livro. Além do mais, a maldade faz parte da personalidade de Alex, e mesmo com o tratamento ela continua ali dentro dele, só não é mais manifestada.

Gostei demais do livro, e provavelmente as gírias demorarão muuuito tempo para sair da minha cabeça hahah super recomendo a leitura, mas venha com mente bem aberta e focada no contexto em que tudo se passa. Tenho certeza que valerá a pena!

Agora alguns dos trechos que eu mais gostei:

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“(…) a tentativa de impor leis e condições que são apropriadas a uma criação mecânica, contra isto eu levanto minha caneta-espada…”

Mas, irmãos, esse negócio de ficar roendo as unhas dos dedos dos pé sobre qual é a causa da maldade é que me torna um maltchik risonho. Eles não procuram saber qual a causa da bondade, então por que ir à outra loja? Se os plebeus são bons é porque eles gostam, e eu jamais iria interferir com seus prazeres, e o mesmo vale para a outra loja. E eu frequento a outra loja. E mais: maldade vem de dentro, do eu, de mim ou de você totalmente odinokis, e esse eu é criado pelo velho Bog ou Deus, e é seu grande orgulho e radóstia. Mas o não eu não pode ter o mau, quer dizer, eles lá do governo e os juízes e as escolas não conseguem permitir o mau porque não conseguem permitir o eu. E não é a nossa história que moderna, meus irmãos, a história de bravos eus malenks combatendo essas grandes máquinas? Estou falando sério sobre isso com vocês, irmãos. Mas faço o que faço porque gosto de fazer.”

“A questão é se uma técnica dessas pode realmente tornar um homem bom. A bondade vem de dentro, 6655321. Bondade é algo que se escolhe. Quando um homem não pode escolher, ele deixa de ser um homem.

“Pode não ser bom ser bom, pequeno 6655321. Ser bom pode ser horrível (…) O que Deus quer? Será que Deus quer insensibilidade ou a escolha da bondade? Será que um homem que escolhe o mal é talvez melhor do que um homem que teve o bem imposto a si?

“E mesmo assim, sob um certo ponto de vista, ao escolher ser privado da capacidade de fazer uma escolha ética, você de certa forma escolher o bem.”

“Delimitação é sempre difícil. O mundo é um só, a vida é uma só. A mais doce e a mais celestial das atividades compartilha em alguma medida com a violência; o ato do amor, por exemplo; música, por exemplo. Você deve fazer sua escolha, garoto. A escolha sempre foi toda sua.”

“E aí, irmãos, eu tive que usar o sono para fugir daquela terrível e equivocada sensação de que era melhor apanhar do que bater. Se aquele vek tivesse ficado ali, eu poderia até mesmo ter dado a outra face.”

“- Escolha…ele não tem nenhuma escolha, tem? A preocupação consigo mesmo, o medo da dor física, o levaram a esse ato grotesco de autodepreciação. Sua insinceridade estava clara. Ele deixa de ser um malfeitor. Ele também deixa de ser uma criatura capaz de escolha moral.

– Isso são sutilezas (…) não estamos preocupados com o motivo, com uma ética superior. Estamos preocupados apenas em reduzir o crime…”

“Será que eu sou apenas uma espécie de animal ou de cão? (…) Será que eu serei apenas uma laranja mecânica?”

“Eles sempre vão longe demais (…) Mas a intenção essencial é o verdadeiro pecado. Um homem que não pode escolher deixa de ser um homem.

“Transformar um jovem decente em uma coisa mecânica não deveria, certamente, ser encarado como triunfo para nenhum governo, a não ser aquele que se gabe de sua capacidade de repressão.”

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